Resenha do Texto “Relativizando – Uma Introdução à Antropologia Social” de Roberto DaMatta.

Roberto DaMatta é um importante antropólogo brasileiro, nascido em Niterói no Rio de Janeiro e bacharel em História pela Universidade Federal Fluminense. Especializado em antropologia social, é mestre e doutor pela Universidade de Harvard. Em seu texto “Relativizando – Uma Introdução à Antropologia Social” de 1981 (Rocco Ed.), procura, a princípio, sinalizar as principais diferenças entre ciências naturais e ciências sociais, além de situar o leitor do lugar exato no qual se encontraria a Antropologia Social e a própria Sociologia entre ambos.

Para realizar tal tarefa, o autor define o campo das ciências naturais como algo dotado de enorme objetividade, em que o mesmo teste de uma dada teoria poderia ser feito por vários observadores diferentes, em diferentes situações e até mesmo com perspectivas opostas e ainda assim, apresentar um único resultado. Segundo o autor, “as chamadas “ciências naturais” estudam fatos simples, eventos que presumivelmente têm causas simples e são facilmente isoláveis.” (DAMATTA, Roberto. Relativizando – Uma Introdução à Antropologia Social. Ciências naturais e Ciências sociais, página 19) Em contraste com isso, as chamadas “ciências sociais” seriam munidas de uma extrema complexidade e exclusividade. A tarefa de estudar os fatos sociais exige do cientista social um olhar crítico e sensível para perceber as motivações e os inúmeros significados que possam haver por trás de até mesmo a mais simples das ações – como a de comer um bolo, por exemplo.

A matéria prima das ciências naturais, portanto, seria o todo conjunto de fatos que ocorrem regularmente, com características simples e objetivas, que poderiam ser facilmente isolados e reproduzidos em um laboratório; ao contrário da complexa matéria prima das ciências sociais, que consiste no conjunto de fatos com determinações complicadas e dificilmente isoláveis, que estariam sob constante mudança, dependendo dos atores e de todas as relações existentes no dado momento da ação, ou até mesmo antes da mesma ter ocorrido.

É importante destacar a opinião do autor sobre as áreas de atuação de ambos os tipos de ciência. As ciências naturais atuariam diretamente com o mundo, influenciando o próprio ser humano de maneira positiva ou negativa, criando novas tecnologias e sendo implantadas no dia-a-dia, de fora para dentro. A contribuição das ciências sociais ficaria por parte das artes, influenciando cada indivíduo de uma forma diferente e, ainda assim, influenciando a todos enquanto conjunto, seja por meio de filmes, peças de teatro, novelas, ou qualquer outra forma de expressão, promovendo modificações no comportamento social, quase inconscientemente.

Uma passagem no texto que vale ser ressaltada é a que diz que “é mais fácil trocar de automóvel ou de televisão e aceitar inovações tecnológicas do que trocar de valores simbólicos ou políticos” (DAMATTA, Roberto. Relativizando – Uma Introdução à Antropologia Social. Ciências naturais e Ciências sociais, página 23), pois, evidentemente, as inovações tecnológicas já são algo comum dentro de nossa sociedade. É algo que acontece a todo momento e que não necessita de períodos de reflexão ou autoconhecimento. Já está pré-determinado; apenas acontece. E na maioria das vezes, não somos responsáveis pelas inovações tecnológicas que ocorrem ao nosso redor. A mudança de valores, por outro lado, parte inteiramente do indivíduo e não acontece da noite pro dia. É algo que demanda pelo mínimo de ponderação e cautela.

Outro fato importante que diferencia as ciências sociais das ciências naturais é o de que as ciências sociais encontrarem moradia, essencialmente, no passado. Não conseguimos analisar um fato social à medida que ele acontece, mas sim a partir do momento em que ele passa. Assim, tentamos reproduzi-lo e estudá-lo da melhor maneira possível, mas nunca atestando que a reprodução é fidedigna, pois muitas vezes não foi presenciado o ato social em si. 

Por fim, a imagem deixada pelo texto é a de que DaMatta tenta, a todo custo, atestar que as ciências sociais seriam de alguma forma menos nocivas e até mais nobres do que as ciências naturais. Assinalar que as ciências sociais precisam de mais empenho e mais participação efetiva do cientista do que as ciências naturais. De que precisariam, portanto, de um olhar mais sensível, interpretativo e, de certa forma, mais humano; além de uma dedicação maior vinda de um cientista social do que a um biólogo ou físico, por exemplo.

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